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Rodrigo de Vasoncellos Pieri

Formação do Atleta: especialização ou diversificação esportiva na infância?

Os Jogos Olímpicos e as grandes competições podem ser considerados uma excelente vitrine de sonhos. Assistir a um triunfo, à uma conquista heroica ou, até mesmo, à uma atitude digna de louvor na prática esportiva tende a chamar atenção de amantes e, por vezes, não amantes do esporte. Como disse Phil Cousineau em O ideal olímpico e o herói de cada dia (2004), as Olimpíadas são, por excelência, o momento auge do encontro entre aqueles que apostaram suas vidas no árduo treinamento esportivo durante anos e aqueles que só por testemunharem os nobres sacrifícios elevam a percepção de sua própria potencialidade. Desta forma, não é de se estranhar que estes momentos épicos das competições esportivas possam servir de estímulo para diversos jovens e seus pais. Não é atoa que muitas pesquisas da presente década (Gulbin et al, 2013; Jayhanthi et al, 2013; Coté e Vierimaa, 2014; Bergeron et al., 2015; Bernardes, Yamanji e Guedes, 2015; Erickson e Coté, 2016; Pieri, 2017; Pieri e Amato, 2019) questionam qual a melhor forma de se iniciar na prática esportiva? Escolher uma modalidade desde cedo e se especializar nela, treinando mesma e somente a mesma? Ou começar experimentando diversas modalidades e só mais tarde, quando estiver mais próxima da idade de se profissionalizar, optar por uma?

No ano de 2015 o Comitê Olímpico Internacional (COI), justamente pensando na iniciação e formação esportiva, reuniu um grupo de especialistas, para compreender quais são os pontos positivos e negativos quanto à diversificação esportiva na infância e à especialização precoce (Bergeron et al., 2015). Seguem algumas de suas conclusões:

- O desenvolvimento de um atleta na infância depende da relação entre diferentes aspectos individuais que estão em constante mudança nessa idade: crescimento físico, processo de maturação e desenvolvimento tanto emocional quanto comportamental. Desta forma, a trajetória até o alto rendimento varia de atleta para atleta.

- Há fatores fundamentais para se oferecer uma boa prática esportiva na infância como a preocupação de minimizar os riscos de doenças e lesões além de promover o prazer durante a prática.

- O ambiente, tanto familiar quanto de treinamento, possui papel fundamental na experiência que a criança terá em sua vivência esportiva.

- Crianças que têm  a possibilidade de experimentar uma maior variedade de modalidades esportivas antes de alcançar a puberdade tendem a apresentar maior habilidade atlética, menos casos de lesão e menos casos de abandono da prática esportiva do que crianças que passam por especialização precoce.

Vale ressaltar que ainda que em alguns casos a especialização precoce no esporte possa estar associada à história de atletas que alcançaram a glória esportiva, deve-se levar em consideração os casos negativos, que são bem mais numerosos (Côté & Vierimaa, 2014).

A partir desta e tantas outras pesquisas a Associação de Psicólogos do Esporte do Rio de Janeiro (ASSOPERJ) recomenda que, mesmo em situações onde o objetivo é desenvolver atletas de elite, os investimentos iniciais devem focar na diversificação e no prazer da prática.

Referências:

Bernardes, A. G., Yamaji, B. H. S., e Guedes, D. P. (2015). Motivos para prática de esporte em idades jovens: Um estudo de revisão. Motricidade. 11 (2), 163-173.

Bergeron M, F., Mountjoy, M., Armstrong, N., Chia, M., Côté, J., Carolyn, E. A., Faigenbaum, A., Hall Jr, G., Kriemler, S., Léglise, M., Malina, R. M., Pensgaard, A. M., Sanchez, A., Soligard, T., Sundgot-Borgen, J., van Mechelen, W., Weissensteiner, J. R., &Engebretsen, L. (2015). International Olympic Committee consensus statement on youth athletic development.British Journal of Sports Medicine. 49, 843–851. doi: 10.1136/bjsports-2015-094962.

Côté, J., & Vierimaa, M. (2014). The developmental model of sport participation: 15 years after its first conceptualization. Science & Sports,  29, 63—69. doi: 10.1016/j.scispo.2014.08.133

Cousineau, P. (2004). O ideal olímpico e o herói de cada dia. São Paulo, SP: Mercuryo.

Côté, J., & Vierimaa, M. (2014). The developmental model of sport participation: 15 years after its first conceptualization. Science & Sports,  29, 63—69.  doi: 10.1016/j.scispo.2014.08.133.

Erickson, K., & Côté, J. (2016). A season-long examination of the intervention tone of coache-athlete interactions and athlete development in youth sport. Psychology of Sport and Exercise, 22, 264 – 272.

Gulbin, J. P., Croser, M. J., Morley, E. J. & Weissensteiner, J. R. (2013). An integrated framework for the optimization of sport and athlete development: A practitioner approach. Journal of Sports Sciences, 31 (12), 1319–1331, http://dx.doi.org/10.1080/02640414.2013.781661

Jayanthi, N., Pinkham, C., Dugas, L., Patrickand, B. & LaBella, C. (2013). Sports Specialization in Young Athletes:  Evidence-Based Recommendations. Sports health, 5: 3 doi: 10.1177/1941738112464626

Pieri, R. de V. (2017). Coesão no Esporte Infantil: Validação da Adaptação Transcultural do Questionário de Coesão no Esporte Infantil para o Português do Brasil. Dissertação (mestrado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de psicologia

PIERI, R. de V. E & AMATO, J. F. Psicologia analítica nas pistas do atletismo: intervenções em um projeto social. In: CONDE et al. (org), Psicologia do Esporte e do Exercício: modelos teóricos, pesquisa e intervenção. São Paulo: Passavento. No prelo, 2019. 

Rodrigo de Vasoncellos Pieri
http://lattes.cnpq.br/6346170382760043
Mestre em Psicologia Social (UERJ)
Doutorando em Psicologia Social (UERJ)
Psicologo Clínico (Barra da Tijuca)
Professor Universitário (Santa Úrsula e Unisuam)
Vice Presidente da ABRAPESP - Associação Brasileira de Psicologia do Esporte
https://www.abrapesp.org.br/
Diretor Executivo da ASSOPERJ - Associação dos Psicólogos do Esporte do Rio de Janeiro



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