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Andreia Cunha Cardoso

COACHING ESPORTIVO E A PERIGOSA ATUAÇÃO NÃO QUALIFICADA EM ASPECTOS PSICOLÓGICOS DE ATLETAS

Nos últimos anos é notório o crescimento mundial do mercado de coaching e no Brasil não tem sido diferente. Mas no contexto esportivo este processo já vem sendo notado há mais de uma década por profissionais de Psicologia do esporte com a oferta de serviço de Coaches nos clubes e de forma particular direta aos atletas. 

A promessa de resultados garantidos e de forma rápida - o processo de coaching  dura em média  doze sessões em um período de 3 meses - enchem os olhos de atletas, treinadores e dirigentes visto que tempo é ouro no ambiente esportivo. 

Mas o que é o Coaching?

O conceito de coaching surgiu na Universidade de Oxford, por volta de 1830. Ele era utilizado para denominar uma espécie de tutor particular (coach) que preparava um aluno para as provas de determinadas disciplinas. De um modo geral o coaching desenvolve-se a partir de uma meta definida pelo cliente (que no processo de coaching é chamado de coachee) onde o coach atua de modo a orientar ou treinar o coachee na direção desta meta, que pode ser pessoal ou profissional, melhorando suas habilidades e desenvolvendo suas competências e capacidades para alcançá-la.

A primeira grande questão neste processo todo é que o Coaching não é uma atividade regulamentada por nenhum órgão profissional, ou seja, não há nenhum requisito de formação profissional para ser um coach além de cursos de curtíssima duração que se proliferam a cada dia. E nem isto é cobrado para que alguém se intitule coach e ofereça serviços de coaching. No esporte é muito comum que pessoas que tiveram experiências como atleta ou treinador e estão fora deste campo de atuação passem a atuar como coaches de novos atletas e treinadores.

A segunda e não menos importante questão é que é um fato: em um processo de coaching irão surgir aspectos emocionais que estão diretamente envolvidos com a meta que o cliente busca alcançar e que por diversos fatores não estava conseguindo sozinho e por isso buscou ajuda “profissional”. 

Retirar um indivíduo da sua zona de conforto, propor novas ações, expor o sujeito a situações às quais ele não está habituado para que ele chegue aos seus objetivos irá impactar emocionalmente o cliente. Uma pessoa não habilitada para manejar corretamente esta situação poderá causar danos que, para serem sanados, podem precisar de mudanças em padrões de comportamento, o que definitivamente um não profissional de psicologia não está nem habilitado e nem autorizado a fazer, incorrendo inclusive em exercício ilegal da profissão de psicólogo se tentar alguma prática restrita aos psicólogos. Mas o que ocorre de verdade é que o coach não psicólogo nem irá dar-se conta de que o cliente está em um processo psicológico com demanda clínica porque não irá adquirir embasamento teórico e conhecimento técnico e científico apenas em um curto curso de coaching para identificar tal processo.


Em 2019 o Conselho Federal de Psicologia lançou uma nota orientativa sobre o coaching instruindo aos psicólogos que  ao utilizarem o coaching na sua prática profissional deverão seguir rigorosamente os princípios fundamentais e artigos do Código de Ética Profissional do Psicólogo (Res. CFP nº 010/2005) assegurando assim que o serviço seja prestado com ética e responsabilidade por profissionais de psicologia e autorizando que psicólogos que assim desejarem possam aplicar técnicas de coaching em seus clientes.

Esta nota orientativa do Conselho Federal de Psicologia pode ser considerada o avanço necessário para  o fim de uma luta preocupante contra a prática do coaching sem pré-requisitos e em direção de uma prática de coaching exercida com embasamento teórico e científico e com segurança para o coachee de que seu processo de coaching será conduzido por um profissional com a formação necessária para aplicar técnicas e saber interpretá-las e avaliá-las de modo a não ser mais uma fonte de pressão e desgaste emocional.

Porém, mais do que importante que ao coachee seja dada a opção de escolher um coach não psicólogo ou um coach psicólogo é a importância de que não se caia na armadilha de achar que o coaching é uma espécie de solução mágica a todos os problemas e dificuldades que o indivíduo ache que tenha para conquistar seus objetivos. E o coaching esportivo é amplamente divulgado e vendido neste sentido. 

O acompanhamento de atletas e equipes por psicólogos do esporte é um processo gradativo e construído pela rotina de acompanhamento do dia-a-dia do atleta e da equipe onde o psicólogo conhece etapas, dificuldades e faz o planejamento para desenvolver e treinar habilidades individuais e coletivas para que atletas e equipes atinjam objetivos específicos e objetivos gerais traçando metas de curto e longo prazo ao longo do calendário competitivo. E para isso o psicólogo esportivo pode até lançar mão de técnicas de coaching como uma ferramenta e não como um processo isolado em si. 

É muito importante e faz toda diferença nos resultados esportivos tratar uma questão clínica como uma questão clínica e uma demanda simples de coaching como uma demanda simples de coaching. Porém, na maioria absoluta das vezes só um profissional de Psicologia sabe avaliar e diferenciar uma da outra. Estamos falando de saúde mental e é preciso lidar com a mesma responsabilidade com a saúde mental de atletas como se lida com os aspectos físicos, fisiológicos, nutricionais e técnicos. Aspectos emocionais devem ser conduzidos pelos profissionais  habilitados para isso. Caso contrário falar em trabalho excelência no esporte será sempre uma fala vazia.

Andreia Cunha Cardoso
Psicóloga Clínica
Especialista em Psicologia do Esporte aplicada ao Alto Rendimento
Ex psicóloga das categorias de Base do CR Vasco da Gama
Membro da Comissão de Ética da ASSOPERJ

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