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Alberto Filgueiras

SÍNDROME DE CASSANDRA E A PSICOLOGIA DO ESPORTE

Cassandra era filha de Príamo, rei de Troia. Conta a lenda que ela era sacerdotisa no tempo de Apolo e prestava seus serviços ao Oráculo, fazendo profecias através de seus sonhos. Pouco antes de Helena chegar com Páris à Troia, o que eclodiu a grande guerra contra a Grécia, Cassandra havia sonhado com os muros de sua cidade natal em chamas. Mas não fê-lo calada, avisou ao Sumo Sacerdote de Apolo, avisou a seus irmãos e a seu pai. Não deram ouvidos. As nações gregas bateram armadas às suas portas.

A guerra se arrastava por uma década inteira. Os gregos desaparecem da costa troiana deixando um presente: um enorme cavalo de madeira feito dos destroços dos navios naufragados ao longo dos anos de beligerância entre os povos. Cassandra sonhara por várias noites com um cavalo de fogo que incendiava os muros de sua cidade. Quando ficou sabendo do cavalo, foi ao pai, foi ao irmão Páris, implorou que a ouvissem. Ninguém ouviu, o cavalo foi trazido para dentro dos muros e o resto da história todos sabem. O mito conta que Cassandra faleceu depois de ter sido escravizada pelos gregos. Passou a vida tendo visões precisas do futuro, mas nunca foi ouvida. A síndrome de Cassandra pode ser explicada simplesmente pela sensação de alguém em perceber e avisar que as ações de outra pessoa terão consequências negativas e, ainda assim, ninguém dar ouvidos.

A Psicologia do esporte vem observando um fenômeno curioso nos últimos anos. A busca por aumentar a performance atlética com base em técnicas e práticas da Psicologia moderna criou uma espécie de subárea, sob a alcunha de treinamento mental. O termo é reforçado e defendido por diversos profissionais e entidades do esporte, incluindo psicólogos. Essa modalidade de prática profissional passou a ganhar os holofotes, inicialmente com psicólogos do esporte. Porém, outros curiosos, sem formação acadêmica ou profissional adequada, acabaram desenvolvendo discursos mais poderosos (e menos éticos) com promessas claras de resultados, depoimentos de atletas e invenções pseudocientíficas na forma de porcentagens como “melhorou 20%” sem qualquer rigor estatístico ou metodológico.

Há dois grandes problemas que venho falando há, pelo menos, seis anos e já vi outros psicólogos falando: a falta de compromisso ético desses pseudoprofissionais que visam lucro e não o ser humano se torna um perpetuador do adoecimento psicológico dos atletas e da lógica da vitória a todo custo; em paralelo, vemos os psicólogos perdendo seus trabalhos pela passividade de nossos representantes e das instituições que deveriam defender a categoria. Já há psicólogos que decidiram guardar em suas gavetas seus diplomas (e seu código de ética profissional) para vender serviços que prometem resultados de melhora nos tempos de reação, nas tomadas de decisão e toda uma sorte de valências psicológicas com nomes compostos que os gestores esportivos adoram. O que estamos vendo é uma embalagem bonita e atraente para um produto que tem mais de 50 anos, a subárea da performance da psicologia do esporte.

E o que Cassandra tem a ver com isso? Assim como eu, outros psicólogos vêm alertando para o grave problemas de não defender a profissão. O caminho que estamos trilhando é sem volta, na medida em que não posicionamos a categoria de maneira veemente diante desses pseudotreinadores mentais, estamos deixando de defender o atleta deprimido, aquele com ideação suicida, aquele com overtraining e com burnout. O que estamos vendo é o movimento de psicólogos se vendendo assim como esses outros sujeitos sem que haja qualquer evidência de preocupação com o desportista como ser humano. A verdade nua e crua é que muitos psicólogos só querem dinheiro e poder, como qualquer outro profissional, e essa lógica terá consequências trágicas para a psicologia do esporte e para os atletas. Os pseudo-mental-coachs sabem vender melhor que nós. Eles vão nos dominar, porque eles vendem sem pudor o que o comprador do serviço quer, sem qualquer compromisso em entregar. Fica o aviso e a previsão, mesmo sabendo que ninguém vai ouvir e nada será feito para mudar. Nos falamos depois que Troia for incendiada.

Psicólogo formado pela UFRJ com Mestrado pela PUC-Rio e Doutorado em colaboração PUC-Rio/The University of Western Ontario em Psicologia Clínica na linha de Neurociências. Psicólogo do esporte com passagens pelo COB, FKERJ e CR do Flamengo. Professor do Instituto de Psicologia da UERJ e coordenador do Laboratório de Neuropsicologia Cognitiva e Esportiva.



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