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Caroline Muniz

Valores Olímpicos: a chama que nunca se apaga

Estaríamos vivendo, nesse momento, o fim de mais uma edição dos Jogos Olímpicos. Quantas medalhas o Brasil teria ganhado? Qual teria sido a conquista mais emocionante? Quantas vezes teríamos escutado o hino nacional brasileiro do outro lado do mundo? O cenário mundial tomado por uma pandemia nos fez adiar todas essas respostas.

Para além de todas essas questões, outras tantas precisaram se reinventar, como a rotina do/a atleta olímpico. Esta precisou de muitas adaptações nesse período de pandemia - provocada pelo vírus SARS-CoV-2 (COVID-19) - que exigiu do mundo o isolamento social e, consequentemente a interrupção de treinos e campeonatos. Além disso, em pleno ano olímpico, os/as envolvidos/as com os Jogos de 2020 foram tomados pela dúvida: adiamento ou cancelamento das Olimpíadas? Da qual decorreram tantas outras. 

O ciclo olímpico – período de 4 anos entre uma edição dos Jogos e outra – precisa conter em sua estrutura, dois grandes quesitos. Primeiro, a organização de uma comissão técnica que atenda às diversas esferas do atleta (física, técnica/tática, psicológica e social) e segundo, a rotina de treinos e competições. Em sua esfera pessoal, é comum que o/a atleta também faça planos, como, mudanças, viagens pessoais, casamento, engravidar, entre outros, pois é no fim desse ciclo que o/a atleta pode se dedicar aos seus planos pessoais e sociais com mais tranquilidade.

Não parece ser fácil adiar tudo isso. A preparação física, técnica, emocional e pessoal precisou ser remanejada para uma estrutura longe do ideal, já que muitos/as atletas se afastaram de seus centros de treinamento e precisaram adaptar suas próprias casas para isso. A preparação psicológica deixou de ser in loco e ganhou as telas eletrônicas como fundamental meio da relação psicólogo(a)/atleta. Os impactos emocionais consequentes da pandemia tornaram-se uma grande demanda neste cenário que agrega tantas incertezas para a vida de todos/as, esportistas ou não.

O que sustenta tudo isso? O que mantém essa motivação ativada? O que equilibra esses sonhos?

Certamente, todo/a atleta possui sua resposta individual para cada uma dessas perguntas e diferentes sonhos, planos, histórias de vida e motivações. Mas há uma conexão entre a Antiguidade e a Era Moderna que sustenta um sentido aos Jogos Olímpicos que transcende o movimento do corpo e a prática de uma modalidade olímpica.

Desde os primórdios dos Jogos Olímpicos na Grécia Antiga, há uma tradição de uma chama de fogo ser mantida acesa durante a celebração das Olimpíadas. Na Era Moderna, o fogo é aceso 100 dias antes deste grande evento esportivo, em Olímpia, na Grécia, mesmo local dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, havendo um revezamento do fogo até que chegue em sua cidade sede. Na Antiguidade, um dos significados desse fogo era marcar um período de paz entre os povos durante a competição dos Jogos. O criador do Comitê Olímpico Internacional (COI), Pierre de Coubertin, reafirma em seu discurso na cerimônia encerramento dos Jogos de Verão de 1932, que o fogo olímpico seguiria seu curso através dos tempos pelo bem de uma humanidade cada vez mais ardente, pura e corajosa (Carmona, 2005).

Coubertin tinha como premissa, a valorização dos conceitos pedagógicos do esporte muito mais do que o desempenho esportivo. Sua visão social era pautada em uma competição ética, de jogo limpo e sadia. O culto ao corpo e à atividade física, os records e marcas possuem sua importância para o Movimento Olímpico moderno, mas são (ou deveriam ser) inseparáveis dos valores pedagógicos que os Jogos Olímpicos propõem. Sem esses valores o esporte seria um falho instrumento transformador (Rubio, 2011).

Em sua obra “O que é Olimpismo?”, Manoel José Gomes Tubino (2007) define esse fenômeno como uma filosofia do esporte que contribui para um estilo de vida que envolve: a alegria do esforço físico, o valor educativo do bom exemplo e o respeito pelos princípios éticos universais. Desde a criação do COI, Coubertin defendia que a prática esportiva não deveria ser um privilégio da elite, acreditava que corpo e mente estavam sempre em sincronia e que o esporte deveria ser uma ferramenta educacional acessível para toda a sociedade.

Essa visão nos fornece o entendimento de que os Jogos Olímpicos possuem um significado maior do que nadar, correr, lutar, chutar ou arremessar. Essas práticas esportivas também puderam evoluir da Antiguidade à Era Moderna graças aos Valores Olímpicos que as sustentam: a amizade, a coragem, a determinação, a excelência, a igualdade, a inspiração e ao respeito.

Em tempos tão difíceis, onde nossos/as atletas precisaram se afastar de suas piscinas, quadras, campos e pistas, o que ampara a esperança de dias melhores, um futuro tranquilo, o retorno aos treinos e competições, sem dúvidas, são as motivações individuais de cada atleta, suas metas e valores. Esses importantes aspectos nos levarão de volta aos nossos centros de treinamento, aos nossos sonhos e planos. Enquanto isso, com ou sem pandemia, o Olimpismo segue com sua missão de fazer que atletas e nós, como sociedade, entendamos a grande relevância educacional que o esporte possui para transformar vidas. Parafraseando Nelson Mandela, o esporte é instrumento para mudar o mundo.

Mais forte do que a oxidação de um material combustível que libera calor, a chama acesa dos Valores Olímpicos é a esperança que nos levará à Tóquio 2020, ainda que em 2021.

Caroline Muniz

Psicóloga Clínica e do Esporte

Especialista em Neurociências do Esporte e da Atividade Física (UFRJ)

Mestre em Psicologia Social (UERJ)

Membro fundadora da ASSOPERJ 

Referências bibliográficas

Carmona, L. (2005). A chama olímpica: o revezamento da tocha no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. 

Rubio, K. (2011). A dinâmica do Esporte olímpico do século XIX ao XXI. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v.25, p.83-90. São Paulo.

Tubino, M. J. G. (2007). O que é olimpismo? São Paulo: Brasiliense.



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