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Marcela Laino

Setembro amarelo, a pandemia do coronavírus e os piratas 

Nas histórias de contos de fada, quando há personagens piratas, eles muitas vezes são tratados como vilões, seres que invadem e saqueiam o que os bonzinhos dos outros navios têm. Nunca fui uma super fã de piratas até passar pela pandemia. O coronavírus nos desloca dos lugares comuns e aspectos de uma vida que outrora nos apropriamos como “nossa”. De supetão, o vírus fez mudar o presente - e com isso mudam também as projeções e expectativas de futuro; e afinal, qual futuro? Ailton Krenak, no texto “O Amanhã não está a venda” faz importantes e intensas considerações sobre os impactos da pandemia na humanidade, e aponta que o amanhã é aqui, e é agora. 

Ora, mas como sustentar uma vida e os nossos próprios modos de existir, quando o presente está em suspensão e o futuro é incerto? Essa é uma pergunta que mobiliza a Psicologia, de modo geral, em tempos de coronavírus. Afinal, viver uma pandemia é sentir de perto a corda bamba das emoções, sendo difícil escapar dos imperativos idealizados sobre produtividade. Numa realidade permeada por incertezas, os aspectos regrados da rotina aparecem como alternativa ante o caos. A forma como lidamos com a nossa própria subjetividade acaba por se enrijecer, e isso atravessa as demais esferas da vida - o  que inclui as relações com a prática esportiva. É como se o corpo precisasse operar sempre em movimento, tendo atividade física regrada, constante e com objetivos definidos. “Operar”, “realizar”, “concretizar”, “manter a forma”, “não perder o pique”, “estar ativa(o)”: não é simples fugir dessa espécie de movimento mental contínuo, que tenta sustentar, no corpo, os modos de viver não pandêmicos, só que num contexto de pandemia. 

Diante disso, é possível que ocorram desvios; há dias em que o corpo não quer exercício, em que a mente demanda repouso. Há dias em que o real não cabe no prescrito. Mas o ócio, a ausência daquilo que se considera “atividade” (incluindo a física), aparece como falta de potência, podendo gerar frustração, tristeza, sentimento de incapacidade. Isso diz de saúde mental, de formas de vida que literalmente nos colocam numa fôrma, em contornos nos quais nem sempre nos encaixamos. 

Talvez a resposta da Psicologia a isso resida no fato de que não há “a” resposta, certeira e precisa. Não estudamos na faculdade qualquer proposição universal ou linear diante de um contexto de pandemia mundial. Mas aprendemos sobre singularidades e como o autocuidado começa quando somos capazes de olhar, acolher e respeitar nossos próprios limites. Permitir-se não caber na rotina, nos imperativos, na prática incansável do esporte, isso também tem suas potências. Claro, não dá para ir de um extremo a outro e simplesmente desafetar, parar o corpo de vez. Mas cabe sim, compreender a importância do ócio, do descanso e do auto acolhimento como um precioso exercício de saúde. “Fazer nada” também é estar ativo, se compreendermos o “nada” como via de abastecimento daquilo que nos mobiliza para ações; dessa forma, o “nada” vira terreno fértil para florescer um corpo ativo, movente, atlético.

Na Psicologia, aprendemos também sobre formação de rede, e que ela tem uma dimensão de potência que aflora os cuidados em saúde mental. A coletividade funciona como uma espécie de costura que nos conecta a partir de nossas dimensões mais vulneráveis - e por isso mais humanas. Alexandra Tsallis (2005) disserta sobre isso em sua tese: “recalcitrância” é o conceito que ela traz, essa habilidade de resistir obstinadamente, de (des)obedecer - e que só acontece quando a gente se remete aos vínculos, quando faz aparecer a própria singularidade, mas em relação. 

Coletivo e formação de rede são potências no cuidado e manutenção da saúde mental - especialmente em tempos de isolamento social em que o contato já se modula limitado. O acionamento de pessoas e serviços em momentos diversos da vida cotidiana, mas em especial nos de vulnerabilidade, são possibilidade de fortalecimento pessoal e criação de brechas ante uma realidade majoritariamente dura. 

Mas e os piratas dos contos de fada, que têm com isso? 

Como uma boa amante de analogias, sinto-me completamente convocada a ser pirata agora, a fazer como eles fazem: embarcam em navios muitas vezes em péssimas condições, e dizem sim diante da possibilidade de desbravar mar adentro. O oceano é um infinito-nunca-possível-de-ser-totalmente-desvendado, e ser pirata é justamente abraçar por completo a certeza de que a jornada será cheia de descobertas. De que pode não ser fácil e alguém pode ficar pelo caminho (ou, no caso, pelas ondas). De que pode ter tempestade à noite e o nascer do sol mais bonito pela manhã. De que as pessoas à sua volta - sejam elas conhecidas ou não - são o mais perto que se chegará de “família”, e o barco de “casa” e o oceano de “quintal”. Os piratas olham pro horizonte e o querem como companheiro, e essa é uma escolha que  remete à vulnerabilidade. 

Em suma, a partir desse momento em que tanto está incerto, começo a pensar que os piratas têm aquilo que mais almejo aqui-agora: coragem. Palavra que vem do latim, cor aticum, que significa agir com o coração. No contexto de pandemia, a gente vivencia uma intensidade volátil de afetos, e está bem ser assim. De repente a vida se mostrou como um oceano imenso e incerto, cujo único fato concreto a respeito é que ainda tem muito para descobrir. Particularmente, penso que a única forma possível e viva de fazer isso é em rede e agindo com o coração. Tendo coragem, e assumindo o lugar vulnerável e desbravador de pirata. Avante!

OBS: Se você está se sentindo solitária(o) e vulnerável ante seus próprios afetos e a realidade que nos cerca, procure ajuda, acione a Psicologia. Se já pensou em desistir da vida, convoque a rede. Disque 188. 

Referências Bibliográficas: 

TSALLIS, Alexandra Cleopatre. Entre Terapêutas e palhaços: a recalcitrância em ação. 2005. 194f. Tese (Doutorado em Psicologia). Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Rio de Janeiro, 2005. 

KRENAK, Ailton. O amanhã não está à venda. E-Book: Companhia das Letras, 2020. 

Marcela Laino

Associada ASSOPERJ
Psicóloga formada pela UFRJ
Formação em Psicologia do esporte pelo CEPPE
Pós graduação em Terapia Através do Movimento pela Faculdade Angel Vianna
Acrobata aérea e idealizadora do Projeto CIAC-Circo e Psicologia.



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