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Daniele Muniz

Não é só futebol – A Copa do Mundo de 2018 como um marcador de quebra de paradigmas

O futebol é um dos esportes mais populares da atualidade. Segundo um senso realizado pela Federação Internacional das Associações de Futebol – FIFA na última década (2007), existiam cerca de 244,5 milhões de praticantes da modalidade no mundo, o que representava, naquela época, 4,13% da população de todo o planeta. Este interesse pelo jogo de bola confere ao futebol o status de paixão mundial. A mobilização em torno do tal esporte envolve desde torcedores, cronistas esportivos, jornalistas a empresários e agentes do mundo dos negócios (MUNIZ, 2016).

Dentre os eventos que alimentam a paixão dos milhares de expectadores, como as ligas nacionais e campeonatos locais, nenhum se aproxima da magnificência da Copa do Mundo. As edições do torneio ocorrem de quatro em quatro ano em diferentes continentes do globo. A última edição, a Copa de 2018, ocorreu na Rússia nos meses de junho e julho do referido ano e revelou dados muito interessantes. A vigésima edição do torneio masculino ocorreu, de forma inédita, em dois continentes distintos, Europa e Ásia. Dentre os doze estádios que receberam as partidas, onze ficam na Rússia europeia e um na Rússia asiática. Esta foi considerada a Copa mais cara da história, com um investimento aproximado de 14,2 bilhões de dólares superando a marca anterior de onze bilhões referentes aos gastos da Copa de 2014 no Brasil.

Além dos aspectos geográficos e econômicos, a Copa de 2018 também revelou marcos simbólicos no âmbito sociocultural. Alguns eventos ganharam tanto ou mais repercussão que o próprio jogo de bola. Antes mesmo do início do mundial vários casos de assédio sexual foram denunciados. Oficialmente, chegaram a ser registrados quarenta e cinco casos, o que fez com que a ONG Fare Network, entidade aliada da FIFA no controle de casos de discriminação e racismo, sugerisse alterações nas edições das imagens do evento. Durante o mundial, a transmissão oficial do evento, a pedido da ONG, diminuiu a exibição de mulheres como símbolos sexuais, típico em jogos de futebol, a fim de evitar mais casos de sexismo. 

O Brasil também ficou marcado na conjuntura sexista da Copa quando torcedores brasileiros ridicularizaram uma mulher russa expondo e vinculando sua imagem a conteúdos vexatórios de cunho sexual.  O caso, que rapidamente chegou às redes sociais e grande mídia, gerou indignação e repúdio entre a sociedade brasileira e mundial.

Este talvez tenha sido um dos pontos de partida para fomentar um debate que ultrapassa as fronteiras do esporte. Num evento da relevância da Copa do Mundo, em que o enredo do jogo de bola costuma ser a atração principal, outros cenários redirecionaram os olhares e atenção dos expectadores num movimento quase espontâneo que acompanha as leituras de mundo deste tempo. Pudemos observar um limiar de tolerância muito baixo para comportamentos outrora considerados naturais e esperados dentro de tal contexto por boa parte dos consumidores do evento Copa do Mundo. Nossos filtros cognitivos que regulam, dentre outras coisas, crenças, valores e juízos morais estão passando por um processo de ajuste e amoldamento, fenômeno característico de uma sociedade que atravessa um ciclo de mudança de paradigmas. Serge Moscovici, precursor da teoria das Representações Sociais (1961) chamaria tal processo de mudança de representações, quando em relação, os diferentes grupos sociais constroem e organizam os significados dos estímulos do meio a fim de consolidarem um saber sobre determinado objeto. De acordo com a teoria, as representações sociais orientam a maneira como se interpreta a realidade. Por conseguinte, está envolvida na elaboração de possíveis padrões de respostas oriundas desta negociação de sentidos. Portanto, a mudança das representações estaria vinculada às informações disponíveis nos meios de comunicação, com os saberes que circulam na sociedade de forma dinâmica e com a complexa rapidez da comunicação (MOSCOVICI, 1961). 

Numa época em que se discute a garantia de direitos humanos básicos por grande parte da população e especialmente por grupos historicamente oprimidos, determinadas manifestações comportamentais são consideradas inapropriadas, em certos casos, inaceitáveis. 

Este período de revisão de condutas, fez saltar aos olhos muito mais o comportamento do Neymar nos jogos, por exemplo, tema de intensos debates nas redes sociais, nos bares entre amigos e ambientes de trabalho do que conteúdos técnicos e táticos adotados pela seleção brasileira. 

Também ganhou destaque nesta Copa a presença de iranianas dentro dos estádios pela primeira vez. No Irã elas são proibidas por lei, desde 1981, a frequentarem estádios e ginásios esportivos. Até 1987 elas eram proibidas de assistir jogos pela televisão. Num momento em que o movimento feminista cresce em força e representatividade, este marco foi muito simbólico e ganhou notória repercussão acompanhando a visibilidade das lutas pelos direitos das mulheres em todo o globo.

Ainda dentro deste entrecho, a presidente da Croácia Kolinda Grabar-Kitarovic, foi considerada por alguns meios de comunicação a protagonista da final do mundial. Kolinda é a primeira figura feminina a ocupar o posto de presidente de seu país em cinquenta anos. Durante o mundial ela chamou a atenção por, dentre outras coisas, pagar as passagens de avião e hospedagem com recursos próprios mesmo sendo uma chefe de estado, descontou de seu salário os dias não trabalhados, usou a camisa da seleção de seu país enquanto os demais chefes de estado usavam vestimentas formais e foi muito afetuosa e carismática no trato com os jogadores das seleções no momento da premiação dispensando tratamento diferenciado. Sua destacada presença feminina naquele cenário claramente dominado por homens foi outro marco emblemático desta Copa do Mundo. Segundo dados da FIFA, 3,57 bilhões de pessoas assistiram a final da Copa, o que representa 51,3% da população do planeta. Considerando estes dados, pode-se ressaltar o quanto de representatividade estão implicados nesta presença feminina através da figura da presidente da Croácia. Mais da metade da população do planeta assistiu uma mulher “roubar a cena” num ambiente predominantemente masculino. 

Por fim, embora os eventos relevantes não se limitem aos apresentados no texto, pode-se considerar um eminente demarcador simbólico, a emblemática vitória da seleção francesa, campeã do torneio, e a exaltação do multiculturalismo num momento em que o mundo, sobretudo a Europa, discute tensões étnico-raciais e políticas de imigração. Dos vinte e três jogadores convocados da seleção francesa, dezenove tem origem familiar em outros países. Este acontecimento levanta questões importantes sobre pertencimento, aceitação e identidade. Diante do agravamento de casos de xenofobia, e políticas anti-imigratórias na França e em outros países do globo, uma seleção multiétnica ser campeã do torneio de futebol mais importante do planeta obriga o mundo a olhar, mesmo sem querer para estas questões.

O mundo gira velozmente e as relações humanas estão em constante movimento. A todo momento são negociados sentidos, combinados acordos e instituídos novos saberes. De acordo com Muniz (2017) “o esporte como fenômeno social integra diferentes aspectos da cultura. Através das práticas sociais relacionadas ao esporte é possível compreender os modos de subjetivação e sistemas de valores e crenças do mundo contemporâneo.” Neste sentido, a Copa do Mundo, em sua magnitude, serve como uma grande vitrine das relações interpessoais entre os povos e revela a dinâmica universal do movimento de quebra de paradigmas com o surgimento de novas representações sociais.

Daniele Muniz

Diretora ASSOPERJ 

Mestre em Psicologia – UNIVERSO

Especialista em Psicologia do Esporte – CFP

Graduada em Psicologia – UFRJ

Professora e supervisora de estágio em Terapia Cognitivo-comportamental em Psicologia do Esporte

Psicóloga do Time Ágatha e Duda de vôlei de praia, em parceria com o Time Brasil – COB

Psicóloga do Instituto Pró Brasil de Saltos Ornamentais 

Psicoterapeuta Cognitivo-comportamental

FONTES:

MOSCOVICI, S. Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social. Petrópolis: Vozes, 2003.

MUNIZ, D. Entre o lazer e o Trabalho: o futebol e a identidade profissional do jogador da categoria sub-20. Dissertação de mestrado, 2016

MUNIZ, D. A Teoria das Representações Sociais e o Fenômeno Esportivo: uma leitura possível. In: Psicologia e Esporte na Atualidade: reflexões necessárias, São Paulo: Passavento, 2017.



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